Feliz aniversário, 7 a 1 !

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Um dia após comparecer na Rede Globo para ser entrevistado sobre o “medo da vitória”, acordei no dia marcado pela maior vergonha que vivemos na história de nosso esporte: o 7 a 1 para a Alemanha na Copa de 2014. O fatídico 8 de julho que nada adiantou para mudar os rumos do nosso futebol.
 
Tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas que viveram “o maior silêncio do mundo” – no Maracanã, em 1950, quando perdemos a Copa mais ganha de todos os tempos para o Uruguai, de virada. Ali faltou seriedade e compromisso. Os jogadores comemoram o título na noite anterior, ao lado do presidente da república com direito a champanhe e honras de Estado. Nelson Rodrigues, no dia seguinte à catástrofe – disse em sua coluna no jornal do Brasil: “se em vez do Flávio Costa (treinador) no túnel do Maracanã, estivesse o Freud, talvez aquela catástrofe tivesse sido evitada”. De novo: nada foi aprendido.
 
A dor da Copa de 82 também foi outra – bem diferente do vexame do 7 a 1. A tragédia do Sarriá, quando perdemos para a Itália por 3 a 2, teve contornos de tristeza e não de vergonha. Aquela seleção nos fez chorar – só que de emoção e beleza. Ao contrário dessa de 2014 que nos envergonhou pela soberba, irresponsabilidade e futilidade.
 
Como torcedor e amante dos esportes (não escolhi a Psicologia do Esporte à toa), quero frisar, aqui e uma vez mais, minha indignação diante daquele absurdo protagonizado por pessoas completamente despreparadas e irresponsáveis (não cabe, aqui, nomear um a um. Até porque, se existe o mínimo de consciência entre todos eles, espero que um dia a ficha possa cair – o que acho improvável dada a frieza e superficialidade das explicações sobre aquele vexame).
 
O 7 a 1 virou uma marca (dolorida para uns, rentável para outros) e, com ela, pode-se capitalizar em cima. Sim, é verdade. Desde a venda de camisetas até palestras pelo mundo. Vale tudo! Sempre há jeito de ganhar um dinheiro. Acreditem: as catástrofes, historicamente, sempre foram rentáveis.
 
Como tudo o que acontece num país fica tatuado na sua história, o 7 a 1 jamais será esquecido. Os personagens que marcaram a página mais sórdida e vergonhosa da história do nosso futebol ficarão, para sempre, na lembrança (e desprezo) daqueles que, desde cedo, aprenderam a amar a seleção brasileira e que dificilmente aceitarão o ocorrido – já que perdoar me parece impossível.
 
Vergonha alheia e piada pronta para os adversários, o 7 a 1 teria um potencial imenso para mudança nas bases do nosso futebol. Lembro-me bem do Muricy falando: “depois de uma tragédia como aquela, o pessoal do futebol brasileiro tinha de parar tudo, colocar todo mundo num hotel e ficar trancado lá por 30 dias para entender o que aconteceu”.
 
Infelizmente não foi o que aconteceu. Os escândalos políticos e administrativos na CBF parecem não ter mais fim. O atraso técnico e tático de nossos treinadores depõe contra qualquer possibilidade de mudança (ao menos no curto prazo). A concepção das emoções e aspectos mentais de um jogador de futebol ainda é banalizada. Ou seja: tudo do mesmo!
 
No segundo aniversário do 7 a 1 – nosso futebol continua o mesmo (ou um pouco pior). Gostaria de esquecer, mas não consigo. Gostaria de apagar aquele dia, mas não é possível. Gostaria de dizer tudo, absolutamente tudo o que penso, mas não posso.
 
Feliz aniversário, 7 a 1 !
 
Até o ano que vem!

2 comentários

  1. Uma bela e proferida fala…dessa história vergonhosa da Copa de 2014..e é fato que ainda continuam “a tapar o sol com a peneira”. Parabéns Professor, por esclarecer que o futebol, não é somente dentro de campo, que tem toda uma estrutura por trás de tudo isso, que está alheia a tal conscientização! !

  2. Caro Ricardo Cozac

    A seleção do Brasil desde a de 1982 não tem evoluído e ficou parada no tempo.
    Vejamos quando é que os dirigentes desportivos chegam a conclusão de que não se justifica os campeonatos distritais, mas sim apenas o campeonato Brasileiro disputado em 9 meses com as melhores equipas de cada estado. Em relação as outras equipas seria feito a 2ª liga e a 3ª liga se necessário.
    Em relação ao campeonato 1ª, 2º e 3ª seriam feitos com campeonatos corridos em duas mãos. Jogos apenas ao fim de semana de maneira que os treinadores preparassem as suas equipas técnica e taticamente como deve ser.
    Esta questão é fundamental para que o futebol no Brasil possa evoluir a nível técnico e tático e competir com as melhores seleções do Mundo.
    O Brasil tem como princípio jogar bola pra frente e que os “craques” resolvam o jogo, mas quando os há!
    Já houve Romário, Bebeto, Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo e agora Neymar que para ser craque ainda tem muito que evoluir.
    O futebol a anos a esta parte tem apostado na parte técnica e tática do jogo onde os “craques” compõem este puzzle.
    Tem de haver conjunto e esta filosofia no Brasil não existe. Os treinadores brasileiros estão ultrapassados e nenhum deles tem capacidade para fazer esta mudança sozinho.
    Os dirigentes de clubes mais os dirigentes dos vários organismos desportivos tem que se sentar para mudar o calendário brasileiro.
    Este é o primeiro passo, mas se quiserem continuar assim não iram longe.
    Olhos abertos brasileiros!!

    Bem Haja
    Caro Ricardo Cozac

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