Os estreitos e defasados caminhos da preparação esportiva no Brasil

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É com muita preocupação e apreensão que tenho acompanhado as inúmeras dificuldades que o esporte brasileiro enfrenta para seu desenvolvimento e modernização em todas as áreas de acesso. A mentalidade do “levar vantagem em tudo” insiste em paralisar os avanços dessa prática no país. A seguir, os principais fatores que retardam esse movimento de atualização e processo de fortalecimento na preparação esportiva de nossos atletas.
1. Defasagem no conceito de atleta
Com o surgimento do esporte empresa, o lado humano dos atletas foi relegado a segundo plano. Resultados, capital, patrocínios, investimentos e um mundo de pressões se tornaram protagonistas na rotina dos profissionais da área do esporte. Por mais que a Psicologia do Esporte reforce a importância de se trabalhar os aspectos emocionais e psicológicos de atletas e equipes, ainda há muitos treinadores e dirigentes que insistem em convicções perigosas, ultrapassadas e prejudiciais diante do significado de atleta – além da nebulosa percepção de suas demandas. Pesquisas e estudos científicos sobre as tendências de comportamento competitivo têm sido realizadas em laboratórios acadêmicos e centros de treinamento. Esse é um campo fértil e carente de profissionais atuantes no processo de desenvolvimento e ambientação dos atletas às demandas psicossociais que são expostos.
2. Psicologia do Esporte e formação de treinadores e professores
Há muito tempo que reivindico – nos cursos de Educação Física – uma formação atualizada e mais adequada dos profissionais sobre essas demandas psicológicas e emocionais, comuns na rotina de seus trabalhos. Poucas universidades de Educação Física capacitam os profissionais nessa área do estudo do comportamento e das emoções dos atletas e praticantes de exercício físico. Os poucos cursos de Educação Física no país – que inseriram a Psicologia em seus currículos – elegeram temas absolutamente desnecessários e fora de sintonia da rotina do preparador físico e professores de Educação Física. Em vez de se estudar as emoções, o campo motivacional, a Psicologia do Desenvolvimento e as funções sociais do esporte na formação do indivíduo, os cursos optam por temas clínicos – pouco (ou nada) associados com as futuras demandas desses profissionais. A busca de profissionais e alunos da Educação Física pelos cursos de Psicologia do Esporte tem aumentado consideravelmente. Isso é um bom sinal.
O ideal, claro, é que eles tenham a possibilidade e estudar temas mais pertinentes com a rotina de seus trabalhos. De modo análogo, os psicólogos necessitam conhecer mais as demandas esportivas – o esporte em si. A rotina dos atletas, a vivência do medo da vitória e derrota, as relações internas das equipes, o cenário do cotidiano profissional dos atletas e times, a preparação para jogos e treinos, a concentração e tantos outros momentos do cotidiano esportivo. Os livros ainda oferecem um plano basicamente teórico – e pouco prático. É preciso ir a campo e conhecer, de perto, a dinâmica da vida esportiva.
3. Falta de coerência na ação de várias confederações
Minha rotina no atendimento a atletas na Associação Paulista da Psicologia do Esporte é, via de regra, atrelada às dificuldades por eles vivenciadas com boa parte das confederações desportivas. Atuações burocráticas e incoerentes dificultam ainda mais o tempo de permanência e evolução desses atletas no universo das competições e alto rendimento. Falta bom senso, conhecimento, organização e, por vezes, ética. São poucas – e raras – as instituições políticas que apoiam verdadeiramente os atletas em seus caminhos profissionais.
4. Com os Jogos Olímpicos chegando por aqui, o Brasil estará no foco do esporte mundial. Será que estamos preparados para as pressões que os atletas sofrerão por atuar em seus próprios domínios? A volatilidade do sangue latino – e a famosa personalidade carente de ídolos e referencias esportivas nacionais (“síndrome de vira-lata”), serão adversários ferrenhos nessa luta que se aproxima.
Não vejo nossos atletas diante de uma preparação esportiva adequada e completa. Raros são os trabalhos multi e interdisciplinares – comuns em países europeus e nos Estados Unidos.
Nosso futebol, há tempos, não é mais aquele que tanto orgulho gerou aos amantes dessa modalidade. O que virá pela frente é uma grande e perigosa incógnita. Pior: a ficha parece que ainda não caiu e o tempo está escoando. Será que, de fato, há mesmo o interesse no investimento e evolução de nossos atletas? Seria a limitação cognitiva e intelectual de boa parte de nossos dirigentes, uma lacuna intransponível ou imutável?
A resposta a todas essas indagações não me parece difícil. O tempo e sua irrefutável sabedoria trarão os resultados dessa somatória ao cenário esportivo mundial.
Prof. Dr. João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte, atua nas áreas da pesquisa, ensino e intevenção há 24 anos. Presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Doutor e pesquisador pelo laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP – contatos para cursos e atendimentos a atletas e equipes – www.ceppe.com.br e [email protected]

Um comentário

  1. Considerando todos os argumentos citados e com ênfase nos comentários do quarto bloco,é de se esperar que toda e qualquer medalha conquistada pelo Brasil será fruto de uma jornada heróica,pois o atleta brasileiro de um modo geral está à deriva sem lenço e sem documento.Para um atleta brasileiro,uma medalha de bronze exige mais suor e lágrimas do que uma de ouro ou prata para um europeu ou um americano.
    No meu ponto de vista o texto é irreparável e lamentavelmente reflete a nossa triste realidade.

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