O que mudou? Antes eu podia realizar e agora……

Em um diálogo muito recente com uma mulher adulta, que viveu a Educação Física Escolar em uma escola pública, fiquei muito curioso em saber da experiência da cultura corporal de movimento vivida. Em meio ao discurso, acalorado e saudoso, veio a frase – “no meu tempo não precisava ser alta, magra e forte para jogar voleibol, até no time da escola. Mas hoje, se não tiver estes atributos estará, obrigatoriamente fora do time e, muitas vezes, na arquibancada da escola mesmo nas aulas de Educação Física”.

Buscando realizar certo retorno ao passado, tomando por base a idade presumida da minha interlocutora, chegamos ao momento em que não haviam os campeonatos escolares com a ênfase que passamos a ter nos últimos anos. Surgiram até a Federação Paulista de Esporte Escolar e a Confederação Brasileira de Esporte Escolar que, com os custos arcados pelas Leis de Incentivo ao Esporte, passaram a oferecer competições esportivas nos moldes seletivos e elitistas com os quais convivemos.

A frase da interlocutora marcou em minha mente a invasão do modelo esportivista no seio da escola e das aulas de Educação Física. Em vários de nossos textos aqui postados chamamos a atenção para estes aspectos que, infelizmente, continuam perpassando a sociedade eivada do senso comum e valorização de poucos em detrimento de muitos. Sentimos a imperiosa necessidade de desvincular, definitivamente, das aulas de Educação Física Escolar dos movimentos de esportivização pautados pelo Esporte Institucionalizado. Aliás, sempre os mesmos anos após anos por séculos. Quem sabe, um dia, os quadros políticos e de lideranças no meio esportivo possam compreender a diferença e alterar o processo. Quem sabe?

Daniel Carreira Filho

2 comentários

  1. Vai ser difícil separar as aulas com competição. Entendo que a Educação Física escolar não deva ser competitiva e nem exclusiva. Mas reconheço também que a prática esportiva leva até inconscientemente à competição. Vejo pelas criancinhas do pré escola que quando veem um bola rolando, saem correndo atrás dela para ver quem a pega primeiro. Além da curiosidade em saber o que é, e como é uma bola, existe também um pequeno gesto de competição.

    1. Prezado Edison
      Nem sempre o processo se configura como aponta. Em nosso estágio no Japão, pelos idos da década de 1980, assistimos a uma festa escolar “UNDOKAI” em que as crianças da escola eram divididas em dois grupos, o branco e o vermelho (cores da bandeira). Para minha surpresa, naquela ocasião, vi as crianças de branco torcendo para as de vermelho vencer e vice-versa. Há o exemplo de Sheriff&Sheriff (1982) que comparava duas culturas, Americana e Mexicana no trato com as atividades esportivas de seus filhos e contrapunha a vitória como determinante de prêmios e castigos familiares (a americana) e a continuidade da vida, sem prêmios ou castigos tanto na vitória quanto na derrota. O que diferenciará é o ambiente em que as atividades são realizadas. As que valorizam a vitória e as que apenas propiciam oportunidades de vivência das disputas sadias, sem exacerbar para a vitória. A questão que levantamos não é da negação da atividade esportiva mas sim, e principalmente, na determinação metodológica (mediação do conhecimento) calcada no esporte institucionalizado. Acreditamos, por exemplo na regra adaptada ao participante e não no participante à regra. Ainda mais, a liberdade da participação de acordo com suas possibilidades e não com os limites da institucionalização da prática, em especial a competitiva. A curiosidade é, sem dúvida, a mola propulsora, mas a mediação docente caminhará muito mais na cooperação do que na competição, em especial na escola, muito especialmente nesse território de aprendizagens e garantia destas. Fábio Otuzzi Brotto, nosso amigo professor, traz posicionamentos de a muito tempo sobre os jogos cooperativos na escola. Acreditamos muito mais nessa proposta do que na formação de equipes representativas. Não acha???
      Por fim, encontro em suas manifestações a preocupação em superar as mazelas que vimos no passado e vivemos, em parte, no presente. Grato por suas críticas.
      Que tal nos encaminhar um texto para publicação aqui, no espaço de troca de ideias? No aguardo. Abraços

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